Oi pessoa, como você está?

recebi mensagens maravilhosas e comentários encorajadores sobre a retomada a correspondência, ainda não consegui responder com o devido carinho, mas vem aí. Ainda estou me recuperando da Flip 2026. Ouvi muita coisa boa, revi amizades, me emocionei e estou deixando tudo isso assentar.

Quero falar da oficina Escrever com o tarô, que ofereci online entre junho e julho e venho digerindo lentamente. Quando poetas que respeito me estimularam a dar oficinas, me assustava a responsabilidade de lidar com as expectativa das pessoas e com diferentes estilos e relações com a escrita. Ou seja, só vi as dificuldades, não pensei nos desafios divertidos, nos encontros, nas possibilidades bacanas dessa aventura.

Com o passar do tempo e alguns convites, decidi me arriscar e entendi que uma oficina de poemas é uma experiência curiosa entre a técnica, a escuta e a leitura. Um período em que muitas coisas acontecem. Se algo é ensinado, de fato, é a prestar mais atenção ao próprio texto, e é nessa dinâmica que me divirto e aprendo conforme vou fazendo.

Talvez valha uma breve digressão para comentar o óbvio. Muitos tipos de poetas e leitores de poesia coexistem no mundo e no agora, e quando falo do que me interessa ao oferecer um oficina — me desafiar, pesquisar, aprender, me divertir — me aproximo um pouco da minha relação com a poesia, que é bem peculiar.

Outros partem de outros lugares e propostas, mas eu funciono numa mistura entre a brincadeira e a seriedade, encantar e questionar. Levar o poema a sério, enquanto não me levo tão a sério. Então, pode parecer estranho me divertir quando um poema me instiga, uma turma me provoca, mas entendam, esse é o meu jeitinho. O importante é ter saúde, bons amigos e alguma felicidade, comer legumes, beber bastante água e não perder o réu primário.

Há anos escrevo poemas com referências ao tarô ou a partir das imagens nas cartas, e queria muito encontrar uma maneira de usar o baralho para organizar uma turma. A ideia me rondava desde 2024, quando montei uma oficina de poemas a partir de fotografias que rendeu ótimas conversas sobre eu lírico e material biográfico, criar poemas do ponto de vista de personagens, contar histórias e imaginar como não-humanos usariam a nossa linguagem. [já falei que sou esquisita]

Então, se fotografias de Walter Firmo, Hélène Amouzou, Vivien Mayer, Gordon Parks e Carrie Mae Weems renderam poemas e trocas de ideias, sem dúvida o tarô poderia ainda mais — faltava descobrir como estruturar as aulas [não sei se ensino algo, mas chamo de aula, bancar a contradição é fundamental]. Ah, e preciso mencionar que estudo tarô desde a adolescência e queria juntar duas coisas que me parecem inesgotáveis, a poesia e o tarô.

Ler e escrever poesia renova o meu sentimento de encantamento com a vida. Me parece maravilhoso que um arranjo de palavras, imagens, sons seja capaz de nos provocar estranhamentos, nos por em contato com sentimentos e ideias, nos dar palavras para impressões que ainda não tínhamos organizado internamente.

Ler tarô é uma prática de afinar a atenção. Tentar entender processos internos e eventos mundanos, e como uns influenciam os outros e vice-versa. Podemos ter relacionamentos de anos com um bom poema e uma carta de tarô, e a cada reencontro enxergamos algo que tinha escapado. [olho muito tempo o corpo de um poema & minha conversa com o Eremita dura anos]

Eu também poderia embarcar numa brisa de como traduzir também flerta com a leitura das cartas, afinal transpor mensagens de imagem em palavra é um processo tradutório. Ler oráculos e traduzir nos coloca em outra relação com o tempo. E é um trabalho muito influenciado pela experiência e o repertório de quem lê. É um assunto que rende outras cartas, com mais calma.

Até que um dia, lavando louça, pintou a ideia da tiragem. Puxar seis cartas para cada pessoa, criar um encontro individual entre quem escreve e o tarô. Todo mundo junto, mas cada um tinha uma conversa com o baralho.

Foram dois arcanos maiores, um guia e um de conclusão, e quatro arcanos menores, pois cada naipe corresponde aos elementos da natureza [ouro é terra, copas é água, paus é fogo e espadas é ar]. Os arcanos maiores nos trariam temas mais filosóficos, enquanto os menores nos dariam cenas, personagens, situações (menos o às, que é muito filosófico, um beijo e desculpas aos meus alunos que encararam ases, vocês foram corajosos).

É claro que tivemos pessoas impactadas pelas tiragens, hesitações, mas todo mundo escreveu algo e recebeu comentários, então cumpri minha missão. Também nos deparamos com cartas repetidas, mas um dos baratos é observar a abordagem da carta pelo viés e estilo dos autores.

Sabia que o encontro com o oráculo nos traria temas espinhosos, mas também confiei que um dos aprendizados era refletir sobre nossas relações com as cartas. Quais podíamos abordar com humor, curiosidade, sem a reverência de uma consulta? Precisávamos tratar a tiragem feito um mapa, não uma resposta. E, como não sou hipócrita, fiz a minha tiragem e me aventurei com a turma. [monto laboratório e sou cobaia junto]

minha tarefa com o Tarô de Thoth, ilustrado pela Frieda Harris

Quando olhei minhas cartas pensei “a morte chega, leva cada um dos personagens, no fim o diabo tira onda com a cara de todo mundo”. No entanto, a realidade foi bem diferente, mais ou menos assim [onde tem link, dá pra ler o poema]

  1. A morte: um poema em que a inevitável fala de sim mesma, cansadíssima da má fama entre a humanidade;

  2. A princesa ou o pajem de ouros: a juventude, as inseguranças em relação a se sustentar, realizar alguns sonhos, encontrar propósito na vida;

  3. O rei de copas (nesse baralho é cavaleiro, isso é treta ocultista, ignoremos): o amor e alguma maturidade, pois como disse Drummond, amar se aprende amando. Então o que aprendemos até aqui?

  4. O rei de paus (a mesma treta anterior): estar numa posição de autoridade e liderança sem estar confortável, a identificação com a instabilidade do fogo, o desejo por liberdade e movimento;

  5. sete de espadas: ter muitas ideias, mas agir no impulso, sem calcular bem os riscos, fazer com medo mesmo, evitar ser impedido por um excesso de racionalização;

  6. O diabo: um poema em que o capeta, também cansadíssimo de sua má fama, zoa a humanidade.

o sete de espadas no tarô Waite-Smith é esse figura, me pergunto o que ele pensa

Ou seja, inventei uma brincadeira, o tarô me surpreendeu com assuntos que me são caros, porém desconfortáveis, como a Morte e o Diabo [temas trevosos? gente de má fama? desmontar expectativas? gosto!] mas nos arcanos menores, eu não tinha noção de como resolver.

Minha ideia de inicial, de todos os personagens estarem mortos, me conduziriam por seis semanas pesadas, e eu ainda tinha que ler, editar, comentar e encorajar outras pessoas, então escolhi deixar essa galera vivíssima e tentar descobrir o quê essas figuras tinham para me contar.

O mais louco é perceber que seis cartas podiam render séries inteiras: O que a Morte tem a dizer? Como seria a conversa dos personagens com a Morte quando veem que chegou a hora? O que essas figuras falariam entre si, depois de mortas, enquanto aguardam para saber o que as espera? O que o Diabo teria a dizer a cada recém chegado? Como seria a conversa entre o Diabo e a Morte, depois de encaminhadas as pobres almas?

É daí que vem o meu encantamento. Eu jamais pensaria em escrever esses poemas por minha conta, mas talvez agora eu os persiga, porque tenho perguntas, estou curiosa. Quero ler.

O maior desafio dessa oficina, para mim, foi a falta de uma bibliografia estabelecida para servir de exemplo. Geralmente leio para turma e batemos papo sobre características de um poema, o que podemos aprender com ele, quais procedimentos queremos tentar também. Vários poetas conversam com o tarô, porém, várias dessas referências não são óbvias (ainda bem!) e eu não queria forçar interpretações (dos poemas nem das cartas).

Mostrei poucos poemas, porém conversamos bastante sobre o tarô, diversos baralhos, livros de referência, tretas de ocultistas, artistas e baralhos que amamos. Quem gosta de tarô aprendeu, que não conhecia teve um primeiro contato bonito, e ainda estou pensando em e reescrever poemas escritos para as cartas desde 2021 depois dessa experiência, para descobrir onde isso me leva.

Enfim, me meti com coisas que considero inesgotáveis e já estou me alongando de pura empolgação. No entanto, queria partilhar essa coisa curiosa do tempo. Dois anos pra bolar uma oficina de seis semanas, nas quais escrevi catorze poemas com o tarô, quase a mesma quantidade cometida ao longo de sete anos. É como se um percurso de décadas se adensasse e, de repente, muita coisa dispersa fizesse sentido.

Ao me propor a escrever em conjunto, precisei organizar ideias, referências, estratégias e fomos pensando os poemas conforme escrevemos [o que funciona? o que cortar?]. E estou ruminando como esse compromisso com os outros, a troca, cria uma outra disposição, nos desloca de excessos de cobrança, enfraquece na nossa cabeça a voz do crítico/editor interno que nos desencoraja de começar. Em algum momento, abro outra turma de oficina, mas antes vou contando aqui das fichas que vão caindo.

Ah, para quem não sabe, se você responde a esse e-mail, eu recebo seu bilhete, viu.

Um abraço e até a próxima,

Stephanie

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