Oi, pessoa, como você está?
você está recebendo essa mensagem porque assinou a cartinha de banalidades em alguma encarnação passada (sua ou da newsteletter). Não se assuste. A escolha de continuar por aqui, ou não, é sua. Quem resolver ficar, receba minhas boas vindas.
Muita coisa mudou, desde que comecei escrever uma newsletter em 2016, então me ocorreu recomeçar. Esta cartinha-laboratório terá pontos em comuns com a antiga e aos poucos descobriremos qual a energia dela.
Ainda quero falar de livros de um jeito descontraído e trocar ideias sobre a leitura. Nos últimos anos, me vi pensando com frequência na leitura. Passei por momentos de cansaço extremo em que me dei conta de “não conseguia ler nada” porque todas as minhas leituras estavam ligadas ao trabalho.
Também precisei tomar atitudes para preservar o hábito. Colocar o telefone no “não perturbe” para me ajudar a me concentrar. Voltar aos livros de papel me ajudou a lidar com saturação da claridade das telas que me fez cansar até do kindle, que tem uma iluminação confortável para esta remente fotofóbica.
Preservar o tempo e o espaço para ler por curiosidade se tornou um compromisso. Cá estava eu me perguntando: em que medida a leitura fez de mim poeta e tradutora? de que formas ser leitora é uma característica fundamental de quem entendo ser?
Até quem se considerava leitora ou leitor vem lutando há uns anos com a crise da atenção agravada pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. Várias das minhas amizades se queixam de ler menos do que gostariam em comparação aos anos pré-pandemia.
Por outro lado, parece que conversamos pouco sobre como fomos invadidos por lógicas de produtividade e comparação totalmente contrários a leitura por prazer. Se antes ficávamos desnorteadas diante de vários lançamentos, hypes literários, parece que nos últimos anos a leitura passou a ser uma forma de lidar com as angústias de viver (e sobreviver) ao nossos tempos.
Precarização, pandemia, lutos coletivos e individuais que não foram vivenciados com o devido respeito, a crise climática e nossas inquietações pessoais. Convenhamos, é esperar demais da leitura, né, gente. Se não é só a dieta adequada, o mindfullness, a atividade física e a terapia em dia que vai ajudar, não serão os livrinhos do Byung Chul Han. Temos que descansar da sociedade do cansaço, salve a preguiça de Macunaíma.
Parece que caímos em alguma espécie de armadilha. De vez em quando algum livro de ficção se destaca e parece que todo mundo está lendo e dizendo exatamente a mesma coisa a respeito, então lemos pra saber do que se trata e tirar nossas conclusões. Contudo, a vigilância dos autores, os motoboys de treta e o medo do ódio dos fandons inibe discordâncias. Volta e meia matam outra vez a crítica literária como se não existisse um sistema complexo de recepção e divulgação baseado no gosto, que não é lugar da crítica.
Só consigo pensar em como existe um projeto de ataque a nossa criatividade, nossa imaginação e capacidade de apreciar a vida fora de lógicas de consumo e exposição. Tudo isso passa pela linguagem. A capacidade de nomear o absurdo. Identificar as dores e medos individuais e comuns. Descrever deleites e alegrias. Tem gente lucrando com a nossa exaustão e embotamento. Como criamos rotas de fuga?
Ler para se distrair é importantíssimo. Se encantar com personagens — torcer ou se revoltar com eles — imaginar lugares onde nunca estivemos, sentir curiosidade. A leitura é importante porque é inútil num mundo em que tudo tem que ser mensurado, monetizado, viralizado.
É fato que a leitura traz benefícios. Melhora a interpretação de textos, a capacidade de expressão escrita e por aí vai. Contudo, nos apegarmos a isso é recair na finalidade e na produtividade. E essa newsletter se chama laboratório de leitura porque ler me parece melhor jeito de não fazer nada. De reivindicar o tempo livre.
Também desejo que esse laboratório vá além da newsletter. Tenho pensando em propor um clube de leitura online, organizar oficinas de escrita e de tradução, e especialmente em escapar da lógica de treta do X e do substack, da energia de divulgação do instagram.
Essa semana terminei uma oficina de escrita de poemas a partir de cartas do tarô em que conversei muito com a turma sobre como um bom poema e um arcano se renovam aos nossos olhos ao longo tempo. A experiência, o contexto e a nossa capacidade de observar e prestar atenção mudam as nossas possibilidades de leitura e de conviver com o que nos escapa. Estudar tarô e ler poesia são coisas intermináveis e fico feliz de me ver como uma aprendiz no processo.
Quero compartilhar um pouco mais sobre as experiências de leitura e escrita das oficinas, mas isso fica para a próxima carta.
um abraço e até lá,
Stephanie